Mostrando postagens com marcador livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador livros. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Livro: "Monstros Invisíveis", de Chuck Palahniuk

Chuck Palahniuk é o autor do livro que deu origem ao filme "Clube da Luta", um de meus preferidos. Eu já tinha lido outro livro dele ("Assombro"), meio irregular, em que as histórias de vários personagens eram amarradas em um fio condutor que ironiza e leva ao extremo o mundo dos Reality Shows. Como algumas das histórias são muito boas (a ponto de eu ter incorporado - opa! - a expressão "uma cenoura na família", do primeiro dos contos, em meu repertório) resolvi arriscar mais um livro dele.

Na real, eu estava viajando a Campinas, por conta do doutorado, e já estava lendo um bom livro; mas meu estado de espírito estava mais na linha de Tyler Durden: I felt like destroying something beautiful. Então, entrei na FNAC e pedi o último Palahniuk...

Bom, tenho pouco a falar sobre o livro: não recomendo, não. A crítica desta vez se volta ao glamour do mundo da moda, por meio de uma protagonista que perdeu todo o maxilar ao levar um tiro. Drogas legais, esquemas, transexuais, tudo bastante exagerado, a ponto de ficar meio bobo algumas vezes. No fundo, mais importante que a história enrolada é o modo como o autor conta os acontecimentos, sendo possível perceber a estrutura narrativa semelhante à do Clube da Luta: o autor é fácil de se levar às telas, pelo modo como escreve, apesar de meio complicado pelos temas. Acho melhor ficar com o filme do Fincher, ao qual sempre voltei cada vez que I felt like putting a bullet between the eyes of every Panda that wouldn't screw to save its species. I wanted to open the dump valves on oil tankers and smother all the French beaches I'd never see. I wanted to breathe smoke.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Borges e seus Metacontos


Hesitei em escrever sobre Borges, pelo simples fato de ser Borges. Este texto facilmente cairia num grande (e vazio) elogio da obra do autor; ou então, numa coleção de recomendações. Quando comecei a ler Ficções, logo no conto "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius", a cada página eu pensava: fulano tem que ler isso, sicrano vai adorar, preciso tirar uma cópia para Mariazinha.

Decidi, então, deixar de lado a crítica (incompetente que sou em fazê-la) e a recomendação (simplesmente LEIAM!) e vou falar um pouco sobre os motivos que levam Borges a ser o autor preferido dos lógicos. Para tanto, vou analisar o tema de dois contos e tratar um pouco da estrutura geral apresentada pelos textos de "Ficções".

Tomemos, em primeiro lugar, o conto "Funes: o Memorioso". Trata-se de uma fantasia a respeito de um homem que, após um acidente, ganha a capacidade de lembrar-se de tudo. Imagine isso! Mais que uma memória eidética, trata-se da capacidade de se lembrar de todos os detalhes e posições, por exemplo, da roseira que vejo enquanto escrevo esta postagem, das diferenças entre um objeto no agora e o mesmo objeto no agora há pouco.

Entretanto, ainda que esta característica pareça, à primeira vista, algo estritamente positivo, Borges nos surpreende ao mostrar que esta memória perfeita é incapaz de raciocinar! Isto acontece porque, tendo Funes o registro de todos os pormenores de qualquer objeto em qualquer instante, ele é incapaz de ver  nesses objetos qualquer constância. Ao ver um cachorro e olhar para ele um segundo depois, tantas coisas, detalhes, posições, configuração dos pelos, orelhas, olhos, boca, seu peito arqueado pela respiração, tanto, tanto mudou naquele simples cachorro que Funes não consegue aceitar ser(em) o mesmo cão.

Borges nos diz que Funes é incapaz de generalizar. Além disso, seu mundo não contém um dos princípios da lógica aristotélica:
∀ x, x = x (para todo objeto, vale que ele é idêntico a si mesmo) - Princípio da Identidade.

No mundo de Funes, a ciência seria impossível, pois todo conhecimento seria particular, sem espaço para generalizações (nem mesmo a respeito de um único objeto, pois o Memorioso vê, nele, inúmeros objetos não-relacionados).

Outro conto fantástico é "A Biblioteca de Babel", que descreve um mundo formado por uma vasta (potencialmente infinita) biblioteca habitada por pessoas e com o conjunto de todos os livros possíveis. E que são estes "todos livros possíveis"? Todas as combinações de caracteres possíveis (para simplificar, um único alfabeto, e apenas vírgulas e pontos como sinais de pontuação). Vocês conhecem a idéia: dado tempo suficiente, um macaco numa máquina de escrever chega a digitar Hamlet, de Sheakespeare. Ou seja, na Biblioteca de Babel (em algum lugar dela) está a sua dissertação de mestrado, minha primeira redação da escola, o "Dependência e Desenvolvimento na América Latina" de FHC (nós podemos esquecer, mas a Biblioteca não esquece nunca! - como Funes), tudo isso gerado por puro acaso.

Não consigo dissociar esta imagem de uma descrição dos sistemas vivos que vem se tornando padrão: ilhas de ordem num universo de desordem. De todos os livros da Biblioteca, a quantidade de livros (organizações de letras) aproveitáveis seria minúscula em relação à quantidade de livros apenas com letras agrupadas sem sentido. Em outras palavras: numa distribuição aleatória de letras, a quantidade de distribuições que fazem algum sentido é muito menor que a quantidade das caóticas. Isto é quase uma definição de entropia, em que a quantidade de estados mais desordenados é muito maior que a de estados ordenados; e o ser vivo é, muito claramente, um sistema de partículas organizadas, em baixa entropia, que sobrevive ao gerar desordem no ambiente (e captar ordem dele).

Mas eu queria avançar um raciocínio: se não houver limite de páginas por livro, a Biblioteca contém não só infinitos livros mas também livros infinitos! E mais: se a quantidade de livros for infinita, as quantidades de livros significativos e não-significativos também serão infinitas (desde que tomemos a liberdade de definir como "significativo" um livro que ninguém consegue ler até o fim no tempo de uma vida finita...) Neste caso, a análise do parágrafo acima cai por terra: não podemos mais comparar as quantidades.: todos infinitos deste tipo - chamados "enumeráveis" - têm a mesma quantidade de elementos. Acho melhor colocar um limites de letras para os livros da Biblioteca de Babel.

Além disso, a Biblioteca de Babel tem um catálogo, que faz referência a todos os outros livros (sim, da combinação aleatória de letras também surgiria um catálogo de todas as outras combinações). Ora, pergunto: se o catálogo referencia todos os outros livros, ele é completo? Bom, se o catálogo é um livro, ele deveria constar em si mesmo e, como não consta, é incompleto. Mas, pensando melhor, deve haver um meta-catálogo que referencia todos os outros livros e mais o catálogo original... Mais uma vez, sem um limite de letras por livro, estamos diante de uma progressão infinita.


Se os jogos com o conhecimento e com quantidades infinitas já são suficientemente enlouquecedores, a estrtura geral dos contos de Borges também não é nada simples. As histórias são contadas, geralmente, como "histórias a respeito de histórias". Como escreve o autor no Prólogo do volume:

"Desvario laborioso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de explanar em quinhentas páginas uma idéia cuja exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que estes livros já existem e apresentar um resumo, um comentário".


Ele faz exatamente isso, escrevendo sobre livro imaginários. Por exemplo, o já citado "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius" não é um conto sobre o país Uqbar, do planeta Tlön, mas sim um conto sobre uma enciclopédia (criada pela confraria de intelectuais chamada Orbis Tertius) que descreve o país Uqbar do planeta Tlön. O conto é um texto fictício sobre um texto fictício escrito por um grupo fictício: é um metaconto.

A estrutura é semelhante à de "O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam", em que os personagens descrevem um livro que é um labirinto (é quase uma alegoria do hipertexto - esses links que você clica e te levam de texto em texto na web - escrito 50 anos de isso existir) e levada ao paroxismo em "Peirre Menard, autor do Quixote", em que o narrador descreve a tentativa de um autor (mais uma vez fictício) de escrever "Dom Quixote", séculos depois da escrita original de Cervantes, mas com a condição de que o texto seja o mesmo, palavra por palavra! Um metaconto: a descrição do trabalho de um autor que se impõem a reescrita de um livro que já existe, sem copiá-lo, obviamente. Se não tomarmos cuidado, as regressões se tornam infinitas, mais uma vez.

Não é à toa que o bibliotecário cego de Umberto Eco em "O Nome da Rosa" se chamava Jorge...

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Os Sete


O mercado editorial brasileiro, apesar do crescimento recente, ainda é fraco em lançamentos no segmento conhecido por "Ficção Científica, Horror e Fantasia". Por esse motivo, fiquei bastante empolgado quando as listas de discussão e o fandom da área começaram a falar do escritor André Vianco, "o Stephen King de Osasco". Decidi dar minha contribuição e aproveitar para voltar a ler um livro de horror - há tempos li meu último Stephen King. Comprei Os Sete, romance sobre antigos vampiros portugueses que são encontrados presos dentro de uma caravela naufragada no litoral brasileiro.

A história é bem interessante, com uma boa divisão de linhas narrativas que voltam a se amarrar do meio para o fim do livro. A descrição das partes sanguinolentas também é bastante gráfica, e a idéia geral do livro se sustenta. Vianco é um contador de história imaginativo e seus vampiros (cada um com uma "habilidade" especial) funcionam como um time quase invencível.

Mas há um problema, na minha opinião, sério: o livro é muito mal escrito. Há alguns momentos em que parece que o autor é incapaz de usar orações subordinadas, coodenadas, ou apenas longas. Durante a leitura, eu chegava a rezar por um ponto-e-vírgula, um dois-pontos, um mero "e"... Parece bobagem, mas vá ler quase 400 páginas de: "Eles estavam no cais. O cais estava frio. O vento frio agitava seus cabelos. As ondas quebravam com força". Haja paciência! Depois de umas 20 páginas disso, a cada ponto final eu tinha um sobressalto.

O autor é um ótimo contador de histórias, mas talvez seja um cara que funciona melhor mestrando (ou mestreando) um RPG. Por exemplo, um vampiro vai tentar abrir um enorme portão enferrujado; inicialmente não consegue, então "o monstro usou sua força vampírica para abrir o portão". Quase posso me ver numa mesa de Vampiro: a Máscara, participando do seguinte diálogo: "Vou abrir o portão!", "Você não consegue, a fechadura está enferrujada", "Jogo 1d6 contra minha força vampírica", "Tirou 3, conseguiu abrir o portão!"

A questão é a seguinte: a literatura brasileira mainstream é muito rica e culta em sua forma; o esmero com o idioma é marca registrada dos autores nacionais mais importantes. Já os (sub-)gêneros fc, horror e fantasia, de uma maneira geral, dão mais ênfase no conteúdo, e acabam sendo desprezados por nossa elite cultural. É claro que há honrosas exceções (Ignácio de Loyola Brandão, com "Não Verás País Nenhum", André Carneiro) e casos semelhantes na literatura internacional (se o texto de Tolkien é refinado, Asimov é bastante básico), mas me parece que um maior cuidado com a forma seria muito produtivo para os autores nacionais, e para o gênero de uma maneira geral.

Antes que me critiquem: sei que é mais fácil dizer do que fazer. Minha novela publicada ("De Genes, Clones e Afins") é um exemplo de pouco cuidado com a forma. Meu português é até razoável :-) mas o texto é esquemático e pouco detalhado. Um amigo deu uma ótima definição: "Foi o melhor abstract de romance que eu já li". Mas com mais treino e leitura vai-se apurando a técnica - assim espero!

Para encerrar, apesar de todas as críticas, a história de Os Sete é muito bem construída. Para falar a verdade, terminei o livro louco para saber o que acontece depois (no livro "Sétimo"), mas acho que não vou comprar, não: vou procurar para baixar na rede.

domingo, 6 de dezembro de 2009

O Clube do Filme

David Gilmour foi crítico de cinema, apresentador de talk-shows na TV canadense e escritor. A certa altura de sua vida, com dificuldades de conseguir emprego e um filho de 15 anos sendo reprovado seguidamente no colégio, pai e filho fazem um pacto: Jesse poderia abandonar a escola, não precisaria trabalhar nem pagar aluguel, desde que se comprometesse a ver 3 filmes, escolhidos pelo pai, a cada semana. Se possível, conversariam depois sobre o filme e suas relações com a vida dos dois.

A história deste relacionamento está no livro O Clube do Filme, escrito pelo pai após quase três anos nesta experiência. Durante este tempo, o filho cresceu, passou por crises amorosas, usou drogas e... assistiu a filmes. O pai, David, se perguntou todo este tempo se havia tomado a decisão correta ou se estaria prejudicando irremediavelmente Jesse, retirando dele o que é considerado quase que universalmente o bem maior que se pode dar a um filho: a educação. A dúvida procede: é óbvio que boa parte dos "aborrescentes", se questionados quanto à escola, prefeririam ficar em casa, coçando suas partes não-públicas-mas-púbicas, vendo TV e navegando na internet (a bem da verdade, é provável que a maioria dos adultos também respondesse isso com relação a seus empregos...); entretanto, uma coisa é um garoto de 15 anos querer algo, outra completamente diferente é um adulto responsável por ele deixá-lo ter o que quer.

David foi ousado, e deixou seu filho em casa, com a esperança de que, no futuro, ele próprio retornaria à escola (o que efetivamente aconteceu). Outra decisão positiva do pai foi apresentar a Jesse filmes de todos os gêneros e qualidades: dramas, comédias, terror, desde cults europeus até a pior trasheira hollywoodiana. Isto permitiu que o filho se identificasse mais com as sessões, sem que estas se tornassem aulas em pele de DVD.

Mas se a filmografia e a relação pai-fillho são os pontos altos desse livro, há vários pontos-baixos. Muitos trechos parecem estar lá apenas para a auto-afirmação do autor, o qual, diga-se de passagem, acaba sendo o foco do livro ao invés do relacionamento entre ele e o filho; é a volta do velho narcisismo, tocado num post anterior. Não poucas vezes me peguei pensando: tá, mas não quero saber de você, quero saber dos filmes e dos papos que você teve com seu filho. Parece que até Jesse fica de saco cheio do pai depois de um tempo; um crítico mais ácido escreveu: "pra parar aquela chatura paterna vale tudo, até trabalhar como lavador de pratos ou, suprema desdita, voltar a estudar".

Além disso, em muitas passagens parece que o autor de 50 anos é mais "aborrescente" que seu filho adolescente. Quando Jesse perde uma namorada e chapa o coco até baixar hospital, o pai pensa: "Ele vai morrer disso!". Que é isso, rapaz? Parece que David nunca foi adolescente: nessa época, tudo é difícil, importante, fundamental mesmo, e qualquer revés na vida é o fim do mundo (tem um filme que não estava na filmografia de Gilmour, Donnie Darko, que traz uma fantástica metáfora do que é a adolescência; talvez o autor devesse vê-lo...). Não vai morrer não, vai só chapar mais ainda e depois passa.

Enfim, o livro tem altos e baixos. Vale a leitura, mas achei que seria melhor.

E... não, Gabriel, nem peça para montarmos nosso próprio Clube do Filme que não vai rolar...

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Boomerite - Um romance que tornará você livre


Este blog anda muito devagar, especialmente por conta de meu trabalho com o doutorado. Mas prometo que agora volto a postar pelo menos uma vez por semana. (Re-)começo com a análise do livro que já encerrei há mais de um mês.

Boomerite - Um romance que tornará você livre, de Ken Wilber, é tudo menos um romance; também não é auto-ajuda, apesar do título (irônico). Trata-se principalmente de uma análise do mundo da alta modernidade em que vivemos.

O autor (fundador do Centro Integral, que visa desenvolver estudos nas mais diversas áreas, tendo em comum a idéia de que estamos na aurora de uma "evolução" psicológica da humanidade) já escreveu o modesto livro Uma Teoria de Tudo (cujo título ele garante também ser irônico), no qual desenvolve a maior parte de sua filosofia integral. Em Boomerite, sua filosofia é deixada um pouco de lado (aparece no final, na pior parte do livro); o que se lê é uma seqüência de seminários destinados a demonstrar parte de sua tese: que a sociedade atual (em especial a americana) é caracterizada por uma mistura de pluralismo com narcisismo.

Pluralismo, em si, não seria algo ruim, pois permitiria tanto a convivência quanto o diálogo entre pessoas e grupos diferentes. Entretanto, quando combinado com um ego gigantesco, ele termina por impossibilitar o diálogo. Quantas vezes você já percebeu que duas pessoas "parecem" estar dialogando quando, na verdade, cada uma está dizendo coisas que o outro nem ouve?

O livro vai, então, apresentando dimensões da vida social em que se percebe este "ego inflado" e pseudo-pluralista. Algumas situações são bastante específicas dos Estados Unidos (como a cultura de vitimização); já outras dizem respeito também à nossa realidade politicamente correta.

O próprio título do livro é muito específico dos EUA, ao fazer referência à geração do pós-Segunda Guerra (Baby-Boomers); quanto ao subtítulo "um romance que vai fazer você livre" trata-se de uma ironia explicitada no texto: os maiores best-sellers dos EUA na década de 90 traziam em seu nome as palavras você e liberdade.

O grande problema do livro aparece quando acaba a crítica e são apresentados alguns pressupostos do pensamento integral. Neste ponto do livro, pode-se perceber a fragilidade do argumento e a tendência a se cair em "espiritualismos nova-era". As análises políticas também são sofríveis: considerar o governo FHC, juntamente com propostas da era Clinton e o "novo" conservadorismo de Bush como indicadores de que o mundo ruma em direção a uma ruptura com modos de vida pré-integrais é brincadeira...

Ainda assim, a leitura vale pela análise crítica do munto atual, inclusive o acadêmico. Você pode não concordar com o remédio proposto (filosofia integral), mas o diagnóstico é bem agudo. Segue um trecho da introdução:

Algo parece certo: sou um filho desses tempos e eles apontam para duas direções totalmente incompatíveis. Por um lado, ouvimos constantemente que o mundo está fragmentado, dilacerado e torturado, à beira de um colapso, com imensos blocos de civilização massificados, tentando afastar-se uns dos outros, com intenções crescentemente alienadoras, de tal modo que guerras internacionais de culturas são a maior ameaça para o futuro. A tecnologia da era cibernética está evoluindo tão rapidamente que, diz-se, dentro de trinta anos teremos máquinas atingindo inteligência de nível humano, ao mesmo tempo em que avanços em engenharia genética, nanotecnologia e robótica significarão o possível fim de toda a humanidade: seremos substituídos por máquinas ou destruídos por uma peste branca – e que tipo de futuro é esse para uma criança? Em nosso país, a cada dia, a cada hora, a cada minuto, defrontamo-nos com exemplos de uma sociedade que está se esfacelando: uma taxa nacional de analfabetismo que cresceu assustadoramente de 5% em 1960 para 30% hoje; 51% das crianças em Nova York são filhos ilegítimos; milícias armadas espalham-se por Montana tal como bunkers nazistas sobre as praias da Normandia, preparadas para a invasão; uma série de guerras de culturas, guerras de gêneros, guerras de ideologias na academia, que se comparam em malignidade, se não em forma, à agressão multicultural no cenário internacional. O globo ocular de meu pai, na minha cabeça, vê um mundo de fragmentação pluralista, pronto a desintegrar-se, deixando, na sua esteira turbulenta, uma massa desfigurada de sofrimento humano sem precedentes na história.

O olho de minha mãe vê um mundo totalmente diferente, embora tão real quanto o primeiro: estamos nos transformando, paulatinamente, numa família global e o amor, em todas as suas manifestações, parece ser a força propulsora. Veja a história da raça humana: de tribos e bandos isolados a grandes cidades agrícolas, a cidades-estados, a gloriosos impérios feudais, a estados internacionais, à aldeia global. E agora, às vésperas do milênio, estamos em face de uma estonteante transformação nunca antes vista pela humanidade, onde o vínculo humano, tão intenso e tão profundo, descobrirá Eros pulsando gloriosamente nas veias de cada um e de todos, sinalizando a alvorada de uma consciência global que transfigurará o mundo como o conhecemos. Ela é uma pessoa doce e vê o mundo assim.

Não compartilho nenhuma das duas visões; ou melhor, compartilho ambas, o que me torna quase insano. Claramente, forças gêmeas, embora não só, estão devorando o mundo numa escala colossal: globalização e desintegração, amor unificador e desejos corrosivos de morte, delicadeza que aproxima e crueldade que afasta. E o filho bastardo, esquizofrênico, propenso a ataques, vê o mundo através de um vidro trincado, movendo vagarosamente sua cabeça para frente e para trás, esperando que se formem imagens coerentes, imaginando o que significa tudo isso.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Um Louco Sonha a Máquina Universal

A metamatemática é algo como uma "metodologia das ciências dedutivas", nas palavras de Hilbert, ou, de modo mais simples, ela estuda a matemática, utilizando instrumentos da lógica e da própria matemática. Kurt Gödel e Alan Turing são dois dos maiores nomes da metamatemática e têm partes de suas vidas contadas no livro "Um Louco Sonha a Máquina Universal", de Jenna Lewin.

Alan Turing é um dos pais da ciência da computação. Seu artigo de 1936, "Sobre os números computáveis com a aplicação ao problema da solucionabilidade", mostrava que todas funções computáveis poderiam ser reduzidas a procedimentos simples sobre uma fita (infinita), como um 'programa' sendo executado e alterando uma 'memória'. As chamadas Máquinas de Turing - presentes, aliás, no título original (A Madman Dreams of Turing Machines) do livro - são apenas teóricas, mas a partir deste desenvolvimento abstrato foi possível construir as máquinas reais que são os computadores. Turing trabalhou também na contra-espionagem inglesa durante a Segunda Guerra Mundial, na decifração de mensagens codificadas interceptadas dos nazistas. Mas Turing é mais conhecido popularmente por causa do teste que propôs para sabermos se um computador é consciente ou não: o chamado Teste de Turing afirma que é necessário, para demonstrar a consciência em uma máquina, que esta seja capaz de nos convencer, conversando conosco tempo suficiente, que estamos na verdade conversando com um ser humano.

Já Gödel é conhecido por seu Teorema da Incompletude: qualquer sistema formal capaz de expressar a aritmética não pode ser ao mesmo tempo completa e consistente. Teoria completa é aquela em que todas as proposições verdadeiras podem ser demonstradas Teoria consistente é aquela na qual não é possível demonstrar uma proposição e sua própria negação. Ou seja, o que o teorema da incompletude demonstra é que sempre há em uma teoria consistente proposições verdadeiras que não podem ser demonstradas ou negadas. A conseqüência disso é que a aritmética não pode demonstrar sua própria consistência, sendo necessária a utilização de um sistema mais amplo (uma extensão da aritmética) para fazê-lo.

Mas estes desenvolvimentos são descritos apenas de passagem pela autora. O livro de Lewin segue o caminho de tentar descrever a psicologia dos personagens principais, por meio da apresentação de alguns eventos ocorridos em suas vidas, intuindo quais disposições e estados mentais dos personagens os fariam desenvolver suas teorias. Desta forma, a narrativa é bastante fragmentada, não permitindo que nos identifiquemos com nenhum dos personagens principais. Esta identificação seria, de qualquer forma, bastante difícil, pela estranheza das próprias pessoas que foram Turing e Gödel.

Estranhamente, os personagens secundários são os mais interessantes do livro. As relações de Gödel com membros do Círculo de Viena, e indiretamente com Wittgenstein dominam boa parte do livro. No caso de Turing, suas paixões platônicas e 'reprováveis' - ele era homossexual - são tratadas com mais detalhe. É enfatizado seu trabalho na decifração de código do Enigma - máquina de codificação utilizada pelos nazistas - mas sem uma descrição detalhada sobre como este trabalho era realizado.

Turing acaba condenado (homossexualismo era crime na Inglaterra) à castração química. Gödel se torna paranóico, achando que seria envenenado. Cada um a seu modo, ambos se suicidam.

Enquanto o suicídio de Turing - comendo uma maça envenenada ao estilo Branca de Neve - aparece como uma conseqüência inexorável, mecânica do desenvolvimento de sua vida, o lento suicídio de Gödel representa uma forma de demonstrar seu livre-arbítrio: cinco meses praticamente sem comer, uma inanição auto-infligida pela paranóia e pelo desejo de demonstrar que ele podia, sim, realizar escolhas, ainda que impossíveis. Retomarei este ponto quando terminar o próximo livro de minha lista (Boomerite: um romance que tornará você livre, de Ken Wilber), no qual o personagem principal afirma que o verdadeiro teste para saber se uma máquina é consciente seria saber se ela pensa seriamente em suicídio...

Infelizmente, o livro deixa a desejar. Eu adoraria ver uma obra que conseguisse explicar, de maneira simples para um leitor esclarecido, o funcionamento de Máquinas de Turing, os métodos de decifração utilizados por ele durante a guerra, o teste de Turing (que não é tão simples como eu descrevi acima). Os teoremas de incompletude de Gödel também podem ser descritos de maneira simples, ainda que suas conseqüências ainda gerem discussões até entre os matemáticos e lógicos. Não foi dessa vez.
Visit InfoServe for blogger backgrounds.